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OPINIÃO: Phelps, um mito em construção


Fonte: Globo.com

Com sua calça de Capitão América, a locomotiva americana desafia o limite do homem e se permite sorrir dentro d’água antes de ganhar o ouro.

A locomotiva parecia vulnerável, mas abriu vantagem e partiu rumo à primeira medalha de ouro em Pequim

A locomotiva parecia vulnerável, mas abriu vantagem e partiu rumo à primeira medalha de ouro em Pequim

Por duzentos metros, a mais absoluta das certezas olímpicas pareceu… incerta. A prova dos 400m medley chegou à metade estranhamente equilibrada. A distância entre Michael Phelps e os outros mortais (outros?) parecia estranhamente curta. E a virada dos 200m anunciava o pior estilo de Phelps, seu pretenso calcanhar-de-aquiles aquático, o único estilo em que ele não faturou uma coleção de medalhas: o nado de peito.

Phelps parecia estranhamente… vencível. Estaria ali em gestação uma zebra de proporções impensáveis? Estariam o húngaro Lazlo Cseh e o também americano Ryan Lochte nadando, ao mesmo tempo, a prova de suas vidas e prometendo um sprint final épico? Um olhar para a linha virtual que comparava os nadadores na piscina com o recorde mundial mostrava que era tudo verdade. Phelps era perseguido de perto mas nadava em tempo abaixo do recorde – batido por ele mesmo, Phelps, no último mundial.

E então veio a surpresa. Na virada de peito, Phelps acelerou. Fez o melhor tempo de sua vida nos primeiros 50 metros (34.77). Fechou a segunda perna com 35.79… abrindo braçadas sobre Cseh e Lochte – vantagem que ampliaria no nado livre para estraçalhar o recorde 4m03s84 – mais de um segundo abaixo de sua própria marca anterior.

O primeiro ouro estava no bolso. Mas não ainda no pescoço. Aos 23 anos, Phelps subiu pela primeira vez no pódio olímpico chinês com um sorriso relaxado que, em meio às orelhas de caricatura, parecia meio… fora do lugar. Havia euforia ali, havia emoção – e um certo alívio. Seu jeitão largadão, aquelas pernas pequenas, aquele tronco imenso… o personagem parecia tudo menos imortal. A confiança da língua-de-fora a la Michael Jordan saía de cena por um instante.

Era como se encontrássemos um contraste – entre o peixe de braçadas de amplidão impressionante… e aquele sujeito ali, meio desajeitado, prestes a ouvir o hino de seu país. Ele, que já tinha ouvido a melodia cinco vezes em Atenas com modos tímidos, quase plácidos. Desta vez estava ali outro Phelps. Um garoto de 23 anos.

O nadador mais completo da história, que já pulverizou uma quantidade incrível de recordes, que já ganhou toda santa medalha possível… estava ali, tão afeito ao meio líquido, chorando. O mito soava vulnerável, tinha contornos extremamente mortais – ali, no pódio, Michael Phelps não tinha super-poderes.

Clark Kent havia assumido no lugar de Super-Homem – ou Arthur Curry… o de Aquaman. E seguido para a entrevista coletiva, entre eufórico e relaxado… o primeira de seus oito trabalhos estava completo. Phelps então se permitiu um comentário, quase uma indiscrição. Lembrou que, antes de chorar, sorriu. Sorriu debaixo d’água:

- Quando faltavam 25 metros e vi que estava na frente de Ryan e Laszlo… eu meio que sorri…

Pareceu adequado. Sorrir debaixo d’água. E chorar fora dela. O húngaro, medalha de prata no peito, sublinhou:

- Em qualquer prova, quando você chega perto de Michael Phelps, você foi bem.

Na piscina, Michael Phelps das orelhas estranhas é outro. É um super-herói de nome insabido, capaz de voar na água ou superpoder afim. Ver as imagens subaquáticas de Phelps – com sua calça de Capitão América, braços abertos, expirando como uma locomotiva – com o Cubo d’Água acima e ao fundo – é testemunhar vivamente a história esportiva sendo escrita. O limite do homem sendo desafiado. E é essa, no fundo e no raso, a essência dos Jogos Olímpicos. É isso que nos faz ficar acordados, sorrir, chorar, vibrar. E aplaudir.

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